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Los últimos días de Anne Askew fueron mucho peores que su ejecución pública.

LA SANGRIENTA BATALLA DE MUNDA Y EL OCASO DE LOS REBELDES EN HISPANIA

O cheiro de ferro e merda toma conta do ar segundos antes de uma lâmina de bronze cortar o primeiro pescoço. Esqueça os discursos bonitos sobre a glória de Roma ou os desfiles triunfais cheios de coroas de louros. No chão de munda, no sul da Espanha, o que existia era apenas lama vermelha, tripas expostas e o som desesperado de cinquenta mil homens gritando por suas vidas enquanto o metal quebrava seus ossos. Era o ano 45 antes da nossa era. Se você acha que a Guerra Civil Romana terminou com a morte de Pompeu no Egito, você está completamente enganado. A verdadeira carnificina guardou o seu pior capítulo para o final. Júlio César, o homem que havia conquistado a Gália e cruzado o Rubicão, estava prestes a perder tudo. Pela primeira vez em sua carreira militar, os seus próprios soldados de elite, os veteranos da lendária Décima Legião, estavam recuando. Eles estavam quebrando. Eu já estive em campos onde a tensão política se transforma em violência física pura, e posso te dizer: quando o medo domina homens que foram treinados para não sentir nada, o inferno abre as portas. César, percebendo que a derrota significaria a sua cabeça em uma bandeja e o fim de sua ambição imperial, fez algo que chocou até os seus oficiais mais calejados. Ele arrancou o capacete da cabeça, correu até a linha de frente sob uma chuva de lanças e gritou: “Vocês vão entregar o seu general nas mãos de garotos?” Aquele não era um momento de heroísmo de cinema; era o desespero cru de um tirano que preferia morrer na lama a voltar para Roma derrotado.

A batalha de Munda foi o confronto final entre César e os filhos de Pompeu, o Grande – Cneu e Sexto Pompeu –, que haviam reunido as últimas legiões leais à República na Espanha. Mas não se engane com a palavra “República”. Ali ninguém defendia a liberdade do povo. O que estava em jogo era o controle absoluto das riquezas do mundo conhecido, as rotas de comércio, os campos de trigo e os milhões de escravos que sustentavam a máquina romana.

Olhando para essa dinâmica de poder com a experiência de quem estuda os bastidores dos grandes conflitos, fica claro que a crueldade militar romana não era disfuncional; ela era matemática. Os soldados de Pompeu sabiam que não haveria anistia. César já havia perdoado muitos deles em campanhas anteriores, e uma segunda traição na cultura romana era punida com a morte sumária. Por isso, os rebeldes lutavam com a fúria dos homens encurralados. Eles não tinham para onde fugir. Atrás deles estava apenas o oceano e a certeza da execução.

A colina onde os pompeianos se posicionaram oferecia uma vantagem tática brutal. César teve que forçar seus homens a marchar encosta acima, atravessando um riacho pantanoso que logo ficou congestionado com os corpos dos primeiros que caíram. O peso da armadura de placas de ferro, o scutum (o escudo retangular de madeira) pesado de lama e o suor que ardia nos olhos transformaram a subida em um teste de resistência desumano. Eu já presenciei o cansaço físico extremo sabotar a mente de profissionais bem treinados, e o que aconteceu ali seguiu o mesmo padrão. A disciplina romana começou a ruir sob o peso da exaustão e do desespero.

O choque entre as linhas de infantaria foi tão violento que as testemunhas da época relataram que, por quase uma hora, nenhum dos lados conseguiu avançar um único metro. Era uma parede de escudos empurrando outra parede de escudos, enquanto os gladios – as espadas curtas projetadas para perfurar e não para cortar – buscavam qualquer brecha na virilha, nas axilas ou nos olhos do adversário. O barulho era ensurdecedor: o metal batendo no metal, os gritos dos oficiais tentando manter a formação e os gemidos daqueles que eram pisoteados até a morte pelos seus próprios companheiros de linha.

César sabia que se a sua ala esquerda cedesse, a batalha estaria perdida. Foi quando ele tomou a decisão suicida de lutar a pé como um soldado comum. A presença do ditador no meio do sangue e da poeira mudou o ritmo psicológico do combate. Os veteranos da Décima Legião, envergonhados por verem seu comandante de cinquenta e poucos anos arriscar a vida na primeira fileira, recuperaram o fôlego que já não tinham. Eles travaram os dentes, firmaram os pés na terra encharcada de sangue e começaram a empurrar os rebeldes de volta.

A virada tática veio quando César moveu sua cavalaria mauritana para flanquear a posição inimiga. Labieno, o brilhante general que conhecia César como ninguém por ter lutado ao seu lado na Gália antes de traí-lo, percebeu o movimento e enviou uma parte de suas tropas para conter o ataque lateral. Mas no caos de fumaça, poeira e gritos, as outras legiões pompeianas interpretaram mal o movimento de Labieno. Eles acharam que ele estava ordenando uma retirada. O pânico, que é o pior inimigo de qualquer exército, espalhou-se como fogo em palha seca. A linha de Pompeu quebrou.

O que se seguiu não foi uma retirada; foi um massacre. Quando uma formação militar romana se desfaz, os soldados viram as costas e perdem a proteção do escudo. Eles se tornam alvos fáceis para a cavalaria e para a infantaria leve. Os homens de César perseguiram os rebeldes em fuga pelas planícies de Munda, matando sem piedade. Mais de trinta mil soldados pompeianos foram passados pelo fio da espada naquele dia. Labieno morreu no campo. Cneu Pompeu conseguiu escapar ferido, apenas para ser caçado semanas depois em uma caverna, onde foi decapitado. Sua cabeça foi enviada a César como um troféu de caça.

A vitória em Munda consolidou o poder absoluto de Júlio César, abrindo caminho para que ele fosse declarado ditador perpétuo em Roma. Mas o preço pago por aquela vitória foi alto demais. A República estava morta, enterrada sob os corpos de cidadãos romanos que se mataram entre si na Espanha. César voltou para a capital do império cercado de glória, mas também de inimigos ocultos que não toleravam a ideia de um rei governando os destinos de Roma. Menos de um ano após a carnificina de Munda, o aço dos conspiradores encontraria o corpo de César no Idos de Março.

Pensando no futuro e na forma como a história se repete, percebo que munda foi o ponto de virada definitivo da transição de Roma de uma república oligárquica para um império autocrático. O sangue derramado naquela colina espanhola não comprou a paz; comprou apenas uma trégua temporária antes que novas guerras civis quebrassem o mundo mediterrâneo novamente. A violência institucionalizada sempre cobra o seu preço, e o preço de Roma foi a perda de sua própria alma institucional. Aquelas pedras e campos no sul da Espanha hoje estão silenciosos, cobertos por oliveiras e plantações de trigo, mas a lição que eles deixaram continua clara: o poder absoluto construído sobre pilhas de cadáveres tem uma base frágil que desmorona ao menor sopro da história.